sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Fabula!

Amigo, disse a pomba ao gavião
Cruzando rápido o espaço
Não estragues as minhas penas
Que são os raios de sol
Que cairam nos meus braços
- Pena é, respondeu ele
Que sejam precisas penas
para podermos voar
e libertar-nos do chão...
As tuas, deu-tas o sol
As minhas, o coração...

Dalila

Um ímpeto feroz
Me alimenta a gula
Como me vês
De uma raça obscura
Que entre os becos de mim
Se transfigura
Em perfil de cordel
Que em atoarda se fez
Ser secular e madura
Como uma esfinge de grés
A afogar em mistério
O incauto caminhante
Mais singular do que sério!
Tornar real o preço da emoção
Que encaracola a aura
(Prata-lei)
Arrebatando a carga sensual
Dos joelhos unidos, macerados
Dos contrastes gelados
Que inventei...
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Há fomes
Que se alimentam de si mesmas
Com palavras e esquemas
Parasitas
Por isso o ímpeto pode ser sagrado
E derrotar para sempre o mau olhado
Das pragas imprevistas...
********
Ser como a lua que respira fundo
Por saber que o luar
Não sendo seu
Não serve nunca
Para enganar
O Mundo...


quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Fado

Nada nos diz que o vento é sincero
Ou se obedece a leis que não conhece
O que às vezes parece verdadeiro
E o que Deus esquece...

Se neste inverno a neve não vier
Hei -de sentir-me um pouco mais mulher
E aquecer os lábios do meu sonho.
Só nos resta pensar
Que o que vier
Poderá ser mais nobre mais risonho
Nascendo emoldurado de atenções
Bateremos á porta das estações
Voltando a ter as lídimas colheitas
E as consciencias de mãos dadas
Feitas...
Ao ressurgir da saga imortal
A todos o sangue nos prediz
Que há um velho País
Que precisa de nós, de todos nós
E que o Fado, que agora é universal
Reuna para sempre a nossa voz!
 

segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

Nevoeiro!

Os garfos da noite
Enleiam
A curvatura do monte
Rasgam, rasgam
Despenteiam
A franja do horizonte
podem gemer as ovelhas
E pender as oliveiras
Ilusões nunca são velhas
São únicas e primeiras
Dá-me força... Dá-me força
Gelo que tanto vagueias
Dá-me a graça das estreias
Que a vida ás vezes, concede
: - Uma neve protetora
Que dá mais do que o que pede...
Pelos ossos da palavra
Dá-me a certeza do risco
Da missão inacabada
Em que há tantos anos fico
Sorrateira... levezinha
Estreitando a dimensão
De uma confissão só minha
Que não espera perdão
Depois de tanta crueza
Deixa-me no nevoeiro
Inconformada e presa
A um inverno inteiro...

*********

Neste cílicio fremente
que corta o destino ao meio... 

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

Quando pedimos perdão
Onde fica o próprio amor
Na alforria da paixão
Ou na fronteira da dor?


Quando uma alga abraça
A espuma leve do mar
É como a chuva que passa
Para a nuvem descansar...

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012